2011/03/05

Quando apenas fazer o certo não é suficiente.

Texto: Lucas 10.25-37

 

· Irmãos este texto da Bíblia é um dos textos mais conhecidos por todos nós. Por mais que você tenha lido esse texto varias vezes ou ouvido diversas pregações não feche o filtro do seu coração. Deus sempre tem uma palavra nova aos corações.

· Eu digo isso porque os textos bíblicos mais conhecidos são também os menos compreendidos. Justamente porque são lidos tão freqüentemente em nossos púlpitos e são tão recorrentes em nossas prédicas, que acabam por cauterizar ("blindar",) nossas mentes e corações, nos tornando imunes à sua mensagem.  (Corriqueiro mendigo fuçando lixo)

· Precisamos recuperar o frescor original e o impacto que esses textos tiveram sobre seus primeiros ouvintes e leitores. E essa é tarefa que, só alcançam aqueles que se debruçam para estudar o texto com muito esforço e com a graça de Deus sendo dependente da revelação divina.

Introdução

1) O texto começa dizendo que certo homem quis por Jesus a prova, para pega-Lo numa armadilha ou levá-lO a contradizer algumas partes da lei.     

* Conhecedor da lei: Um intérprete da Lei era um especialista na explicação das leis de Deus. Como conhecedor da lei esqueceu de "Não ponham à prova o Senhor, o seu Deus, como fizeram em Massá." Deuteronômio 6:16

* Chama Jesus de Mestre: Embora o intérprete da lei chamasse Jesus de "Mestre", ele não acreditava que Jesus fosse realmente o Filho de Deus,

2) Vejamos: diante da pergunta perspicaz, feita por um "intérprete da Lei, Jesus responde, com igual perspicácia, devolvendo a ele a pergunta: "Que está escrito na Lei? Como interpretas?" (v. 26).

*Jesus, leva a conversa para um nível onde este interprete esta bem familiarizado a Lei já que ele era especialista em sua interpretação.

*À pergunta objetiva de Jesus, o intérprete respondeu citando uma conhecida síntese legal que os advogados de então carregavam, literalmente, na manga (era costume trazerem atadas à manga das vestes, tiras com resumo de leis, para consultas rápidas): "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (v.27). À resposta tão objetiva do intérprete, segue-se a conclusão lógica e sumária de Jesus: "Respondeste corretamente; faze isto e viverás." (v. 28).

* o interprete se sente constrangido com a resposta de Jesus, pois sabe no fundo que não cumpre o mandamentos. Alias o próprio Jesus em Mateus 23.3-4 descreve postura desse religiosos "Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los. "Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens."

 

 3) "Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?" (v. 29).

* Justifica-se: o sacerdote apesar de saber que não estava de acordo com a lei não o faz publicamente e nem se arrepende prefere se justificar. *

*Infelizmente essa Tb tem sido a atitude de muitos cristãos diante dos mandamentos de Deus. Ao invés de reconhecer sua desobediência e mudar sua atitude perante ele, prefere justificar e achar culpados para a sua desobediência.

*outro aspecto que também podemos ponderar é que na mente desse religioso como nos demais israelitas existe uma distinção étnica onde o próximo nunca poderia ser um povo pagão, principalmente um samaritano cujo estava para mais um inimigo, um pagão hediondo do que para próximo.

Uma lição:

1 - Deus ama a todos indiscriminadamente, não faz acepção de pessoas. E prefere que todos sejam salvos

"que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade." 1 Timóteo 2:4

"Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas."  Romanos 2:11

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."  João 3:16

Satanás tenta nos fazer pensar que somos melhores do que outros ou que Deus ama mais a uns do que outro. Que somente aqueles que guardam as suas leis estão debaixo de seu amor.. que um homem mundano, uma prostituta. Um pedófilo. Um assassino. Não pode ser alvo do amor de Deus. Assim pensam os interpretes da lei, assim pesam o Jonas da vida,,, assim pensam os legalistas.

 

4) Jesus conta uma parábola v 30: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó..." (vv. 30ss). Jesus recorre à metáfora, à parábola, à linguagem simbólica, à força da imagem e ao poder da imaginação. Sua narrativa descreve uma cena com inúmeras contradições lógicas e paradoxos teológicos.

Observemos mais atentamente alguns desses contrastes:

Primeiro: sabe-se que Jerusalém fica a cerca de 740m (de altitude) acima do nível do mar, enquanto Jericó, a 400m (de baixitude) abaixo do nível do mar na região do mar morto. Por essa razão, numa pequena distância de menos de 30km há um desnível de mais de 1.100m. É um caminho íngreme, cheio de desfiladeiros, ideal para as emboscadas e a ação de salteadores (funcionava assim como uma espécie de "Linha Vermelha" dos tempos neotestamentários). Ninguém, em sã consciência, se aventuraria a passar por ali a não ser que estivesse bem guardado. Por essa razão, as pessoas que tinham que fazer esse trajeto, geralmente, viajavam em caravanas. Ao que tudo indica, portanto, a vítima da parábola não era exatamente alguém a quem se poderia chamar de "prudente". Hoje, se diria que ele "deu sopa pro azar". Deu mole,

Uma segunda questão: geralmente pensamos que o sacerdote e o levita, que passaram "de largo", faltaram com suas obrigações, mas isso não é bem verdade. Pois havia leis muito claras e rígidas que diziam que os que exerciam funções religiosas ficariam impedidos de realizá-las caso tocassem em um cadáver, ou em um estrangeiro, pois estariam ritualmente impuros.

Ora, esses senhores fizeram o que parecia certo, o que era mais lógico. Devem ter pensado: "* Esse que está aí no chão pode ser um estrangeiro e pode me contaminar e impedir-me de realizar minhas funções.

* Ou pior, pode estar morto e, neste caso, nada poderei fazer mesmo para ajudá-l

 * Além do que, se esse sujeito se aventurou a viajar por estas paragens desacompanhado, é porque era mesmo um irresponsável e imprudente — teve, portanto, o que merecia.

* Pensando bem, isso aqui bem pode ser uma emboscada. Ele pode estar fingindo para me atrair e, assim que eu chegar perto, salteadores cairão sobre mim, tornando-me a verdadeira vítima desta história suspeita."

Portanto, a lógica e o bom senso sugeriam a esses senhores que não haveria nada mais inteligente a fazer, a não ser dar o fora dali o mais rápido possível.

Não devemos recriminá-los por isso, pois não fazemos nós exatamente a mesma coisa quase todos os dias, quando passamos por pessoas em situações semelhantes nas estradas, nos semáforos, nas calçadas...?

Finalmente, entra em cena o "samaritano" (que em nenhum lugar no texto é chamado de "bom", a não ser no título que lhe emprestou a tradição e o tradutor, João Ferreira de Almeida).

Esse samaritano, sim, quebra todas as regras do bom senso.

*Aproxima-se do perigo. Quando está bem perto, não pode deixar de notar que a vítima era um desses judeus arrogantes por quem os samaritanos nutriam um desprezo sistemático, mas isso não o impede de aproximar-se ainda mais.

*Importa-se com um semi-morto. Correndo o risco de ser ele também tomado de assalto e terminar do mesmo jeito que aquele que está diante dele,

* detem-se a cuidar dos seus ferimentos: "E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho" (v. 34).

* E mais, servindo-se do seu próprio meio de transporte,

*levou-o até uma hospedaria onde a vítima pudesse ser tratada e recuperar-se dos seus ferimentos (em gr. traumata).

* E ainda, mais, gastou parte do seu dinheiro com tudo isso.

Vemos dois ensinos aqui:

5) A pedagogia do certo

Como se pode ver, nessa história, não há dúvida alguma a respeito de quem teria feito o certo. Quem fez o certo foi o sacerdote e o levita. Eles cumpriram os preceitos religiosos; eles usaram de bom senso, evitando o perigo; eles usaram a lógica e a inteligência para salvar a pele.

Quem fez tudo errado foi o samaritano: arriscou-se, quebrou preceitos, rompeu com o bom senso, desperdiçou suas reservas de medicamentos e ataduras, perdeu tempo e dinheiro — além de tudo, o homem tomou prejuízo!? (acho que isso foi o que mais impressionou os interlocutores de Jesus, pois sabemos de sua fama de avarentos).

Se o sacerdote e o levita fizeram o que era certo, e quem procedeu errado foi o samaritano, porque Jesus considera este último o herói da história?

Esta é realmente uma questão intrigante. Parece que a chave para entendermos tudo está dada no versículo 33: "Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, COMPADECEU-SE dele" (não se trata, portanto, de um "bom samaritano" —como se fosse um bom carioca, ou um bom paulista, etc.— mas de um samaritano bom —como seria um carioca bom, ou um paulista bom, etc..). O verbo "compadecer-se" (em gr. SPLAGCHNIZOMAI) deriva de SPLAGCHNON, que significa "vísceras", "intestinos", "entranhas".

Trata-se daquele sentimento que faz com que o estômago fique embrulhado, revirado, diante do sofrimento humano; tal compaixão é aquela que faz a gente ficar enojado, que solta os intestinos, que dá ânsias de vômito.

Esta é a chave para entendermos a sua proposta de ensino, pedagógica, nesta perícope: É que quando a gente está muito tempo na igreja preocupado em cumprir as doutrinas e a lei de Deus, tendemos a nos concentrar naquilo que é certo (a verdade/razão), e naquilo que é inteligente (lógica!). O mais correto.

Assim, parece natural que, quanto mais seguros estivermos de estarmos certos, e de estarmos do lado da verdade, mais justificativa encontramos para nossos atos de indiferença e de intolerância. Nesse sentido, fazer o que é certo, é o primeiro passo para a intolerância, e a indiferença, saber a verdade pode funcionar como antídoto para a compaixão.

Por exemplo lembro de minha mocidade quando saiamos na madrugada a levar pão aos famintos, mendigos, prostitutas cafetões Deus nos usava para levar um pouco do amor de Jesus aos marginalizados. Muitos nos diziam inclusive lideres da igreja "não façam isso vocês pode ser assaltados, levar uma bala perdida, uma facada na noite"... deixe esses pessoas lá elas estão lá por que querem"

É verdade poderíamos mesmo, estávamos conscientes de como a noite curitibana é perigosa, mas estávamos cheio de SPLAGCHNIZOMAI de Deus, cheios de compaixão de Deus por aquelas pobre almas.

 

6) A pedagogia do bem.

Qual é, então, a questão proposta por Jesus, nessa parábola querido irmão? O problema não é ter que escolher entre fazer o certo ou o errado. A questão está entre fazer o certo ou fazer o bem!

Em outras palavras, Jesus estava propondo que quando tivermos que optar entre fazer o certo ou fazer o bem, devemos sempre escolher fazer o bem!

Como cristãos devemos exercitar a razão para sempre buscarmos o certo, e é isso mesmo, e assim devemos fazer sempre; mas nunca devemos perder a noção de que o certo não é mais importante do que a Vida: "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mt 2.27). "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens."  Atos 5:29

Se a nossa pedagogia do certo nos impede de sermos melhores e mais humanos, se nos incapacita para sentirmos indignação e nojo pela miséria e pela degradação da grande comunidade universal, e se nos torna intolerantes ou indiferentes ao sofrimento do nosso vizinho, a ponto de guardarmos cada vez mais distância dele, algo vai muito mal conosco e com a nossa pedagogia, com nosso ensino, algo vai mal com a nossa boas novas...

Porque só é intolerante quem tem certeza de que está fazendo o que é certo, mas nunca é intolerante o que está certo de estar fazendo o bem.

Entretanto, como desenvolver nas nossas Igrejas um ensino que vá além do certo?

Como ensinar os "entranhados afetos de misericórdia" (Fp 2.1) aos quais o Novo Testamento se refere de modo tão enfático? Haverá quem diga que isso é impossível, que extrapola as competências da Igreja, mas o fato é que não basta ensinar o certo para que as pessoas sejam melhores. Não adianta ensinar o certo se não somos capazes de aprender o que é realmente o bem.

Conclusão

Desenvolver, ao lado da pedagogia do certo, uma pedagogia do bem, talvez seja o caminho a construção de uma igreja forte e operosa.

Ou desenvolvemos uma maneira de nos comunicarmos com as "entranhas" das pessoas perdidas neste mundo, ou acabaremos todos vítimas da intolerância fatal e sumária que haverá de nos tornar a todos cada vez mais sapiens e menos homo.

Ao final da parábola Jesus faz a conclusão do seu arrazoado entre o certo e o bem: "Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei [e notem que, logicamente falando, a resposta não poderia ser outra]: O que usou de misericórdia para com ele." (v. 37).

Essa parábola: é uma proposta de diálogo entre o cérebro e o coração, entre a razão e a emoção, entro o certo e o bem. Contudo, Jesus define o mais importante ao defender que quando tivermos que optar entre fazer o certo ou fazer o bem, devemos escolher sempre fazer o bem! Quanto à pedagogia do certo: pratiquemo-la, e aprenderemos muitas coisas. E quanto à pedagogia do bem, é Jesus quem diz: "faze isto e viverás" (v. 28)!


 

Um comentário:

Fagner Aguino disse...

Agradeço a DEUS por ter dado a vc pastor este conhecimento do certo e o BEM, pois esclareceu o que DEUS esta fazendo em minha vida